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Lentes e seus efeitos


Eric de Souza no Shock.

Equipamento é um tema que sempre suscita várias dúvidas. No surfe, trabalhando com grandes distâncias, pontos focais específicos e diversos planos no quadro, entender as suas lentes e o momento de usá-las é um diferencial. Acho que mais do que apenas usá-las, você precisa ter um domínio do que está usando, e isso pode, e deve, vir com o próprio uso. Mas algumas dicas básicas ajudam a desenvolver o olhar mais apurado para as lentes e seus diferentes efeitos.


Não quero listar e nem especificar nenhuma marca, nem tipos específicos de lente, quero aqui é incentivar o entendimento do equipamento além das especificações técnicas. Eu sempre estou aprendendo com experiências e tentativas, das conclusões vou desenvolvendo novas idéias.


Existe lente específica para fotografar surfe?


Não diria um modelo específico, mas acredito que uma Teleobjetiva ( o que tecnicamente significa ter a distância focal a partir de 70mm mas para o surfe recomendo lentes no mínimo 200mm ) é um equipamento básico. Com ela você “garante” uma sessão de ação mais próxima do surfista e pode se afastar ( ou mudar o zoom ) para ter um quadro mais aberto. Dentro do meu portfolio, diria que 70% das fotos foram feitas com uma Teleobjetiva, por isso acho essencial tê-la para trabalhar de fora d’água. Hoje em dia existem muitas opções de “Tele” para todas as marcas de câmera, tanto lentes fixas quanto zoom ( que englobam uma distância focal maior ). A notícia ruim é que são lentes caras e normalmente pesadas e de manuseio mais complexo.


A variante que vai definir se uma lente é Teleobjetiva, Normal ou Grande Angular, se chama distância focal. Basicamente é a distância do ponto de convergência dos raios de luz dentro da lente até o sensor de captação da câmera. Por isso é uma variável classificada em milímetros, estamos falando de medidas realmente pequenas. Isso talvez não seja o mais importante, mas é legal saber porquê uma lente é classificada como 50mm ou 300mm. A consequência disso, e principal referência a tal classificação, é a proximidade ótica que a lente proporciona. Sabemos que uma lente 300mm aproxima muito mais que uma 50mm, que no caso poderia servir para fazer um quadro das ondas quebrando em algum pico, mas dificilmente serviriam para pegar uma manobra no detalhe. Quando disse acima que considero o mínimo de uma teleobjetiva para o surfe 200mm, estava me referindo a esse valor.


TELE


Para usar uma Tele é muito recomendável que ela tenha um foco rápido. Nas lentes Canon, que eu uso, esse foco é representado pela sigla “USM” ( Ultra Sonic Focus Motor ), que vem na descrição das lentes. Como você estará sempre tentando enquadrar um tema em movimento, a mudança de foco precisa ser rápida. Comecei a fotografar com uma lente sem o USM e diria que não é impossível para começar, mas faz uma grande diferença, principalmente em fotos de ação bem focadas no surfista. O IS, ou Image Stabilization, que muitas lentes Teleobjetivas possuem, considero muito menos prioritário do que o USM. Como no surfe a maioria das fotos vai ser em alta velocidade do obturador, esse acessório acaba se tornando mais um “capricho” do que essencial.


Nathan Fletcher, Pipeline. Lente 70-200mm F4 em 200mm.

As “Teles”, além da proximidade que possibilitam, também criam alguns efeitos óticos que nossos olhos não estão tão acostumados. Como falei em um post anterior ( Fotografia de surfe e composição ), essas lentes aproximam os planos, o que é interessante nas fotos de surfe para brincar com objetos em primeiro plano e fundos. Gosto das teleobjetiva com zoom ( atualmente uso bastante uma 100-400mm e também já usei a 70-200mm ), são lentes relativamente versáteis para trabalhar com a abertura de um quadro. Algumas vezes, é necessário enquadrar um pouco menos da onda, ou dar ênfase a parte do céu sem perder o mar, e coisas desse tipo. Com uma lente fixa você teria o trabalho extra de caminhar para trás para abrir o plano, isso nem sempre é possível. Uma vez fui fotografar de barco a laje de Ipanema e só tinha uma 300mm. Praticamente não consegui fazer nenhuma foto, o quadro ficou tão próximo que mal conseguia focar com o balanço do barco. Se tivesse uma 100-400mm ou até mesmo a 70-200mm, resolveria esse problema abrindo o plano no zoom. Lentes fixas podem ser limitantes, mas também te forçam a procurar diferentes posicionamentos.


Por muito tempo usei uma 300mm e quando queria um plano mais aberto tinha que me movimentar. Talvez tenha ajudado muito na identificação de quadros para fotografar, além da 300mm ter um efeito ainda mais acentuado do que a 100mm, por exemplo. Quanto mais zoom, mais os planos se distorcem e o foco fica crítico, o que é legal se for bem trabalhado.


Junior Faria em Puerto Escondido por uma 300mm fixa F4.

Acho que para sair do básico com o uso de uma "tele", o principal exercício é o uso dos diferentes planos e suas variantes, se aproximando ou distanciando do tema. O resultado vai te levar a boas conclusões sobre o uso da lente, o momento mais certo de se aproximar do surfista ou de afastar, e o quanto. É bom sempre observar e manter um mínimo de nitidez e leitura no surfista e na manobra, muitos quadros mais abertos perdem essa leitura se a manobra não for das mais impactantes, por isso é importante considerar mais essa variante, uma boa foto precisa ter um bom momento.


NORMAL


Essas lentes são chamadas assim pois se aproximam bastante da perspectiva do olho do ser humano, não apenas em termos de distância mas também considerando o ângulo de visão. Uma "normal" clássica é a 50mm fixa, que no digital veio a se transformar na 18-55mm, uma lente bem básica. As normais, que vão mais ou menos de 32mm ao 70mm, apresentam um grande desafio por reproduzirem bem a visão do ser humano. Seus quadros normalmente não impressionam por proximidade ou distorções de planos, isso as vezes pode fazer a foto ficar com cara de amadora ou de celular. Essas são boas lentes para fazer fotos de ondas quebrando e visuais da praia, e servem, se bem trabalhadas, para a ação também. São desafiadoras pois te obrigam a fugir um pouco do senso comum, todos aqueles efeitos sensacionais de uma Teleobjetiva ou mesmo da Grande Angular não existem no quadro da normal, diria que o fotógrafo é mais exigido com essas lentes.


Leme. Lente 28-135mm F3.5-5.6 em 40mm.

Partindo desse princípio, são lentes legais para trabalhar com quadros bem diferentes, ângulos inusitados ou diversos planos. Em uma situação de praia cheia, por exemplo, ela possibilita enquadrar tanto a areia quanto o mar de uma forma mais abrangente qua uma "tele", e menos distorcida do que uma grande angular. Nessas lentes, o foco crítico acontece apenas com o objeto muito próximo, então normalmente no surfe você terá um foco em alguns planos, o que pode ser bom para mostrar uma cena com diversos acontecimentos. Mas ruim se você deseja desfocar um objeto em primeiro plano para esconder um pouco de informação.


São Conrado na visão de uma 35mm.

GRANDE ANGULAR


São lentes bem comuns na fotografia de dentro d’água, mas possíveis também para se usar de fora. A grande angular abre ainda mais o quadro, a ponto da realidade sofrer distorções. São lentes boas para fotografar grandes line ups, praias de ondas longas e visuais mais panorâmicos. Mas quase impossíveis de trabalhar com ação da areia, ao menos que a onda quebre muito perto e você se posicione na beira. O surfista normalmente vai virar um pequeno ponto na foto, o que não é legal se a sua intenção for destacá-lo. Pelo quadro muito aberto, recomendo sempre tentar ter um controle do preenchimento da foto quando usar uma grande angular. As vezes você está enquadrando a onda em um canto mas o resto da foto pode ficar bem vazia e sem sentido, ou mesmo poluída de mais. É uma lente que requer atenção redobrada com objetos e cenas indesejadas invadindo o quadro. Mas também podem dar um efeito bem lúdico ao quadro.


Teahupoo por uma grande angular 10mm.

Essas lentes tem a distância focal sempre abaixo de 32mm e podem chegar até 10mm ou menos. Algumas dessas lentes acabam distorcendo demais, principalmente os cantos da foto. Mas as melhores ( e consequentemente mais caras ) já são trabalhadas para evitar isso. Na lista de prioridades para fotografar o surfe de fora d’água, elas, na minha opinião, ficam por último. Mas tem algumas situações em que podem ser um grande diferencial, no caso de você estar em um barco, por exemplo, ou ambiente limitado.


PARA CONCLUIR


Ter um jogo de lentes que englobe todas essas características é o sonho de todo o fotógrafo, mas a realidade é que são lentes bastante caras e para quem quer começar, acredito que existam prioridades. Também não adianta ter várias lentes e não dominar nenhuma delas, conhecer as lentes que você tem vai te dar muito mais segurança do que ter uma variedade grande sem saber usá-las.

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